02/10/2018 - 08:03 | Economia

RESENHA SEMANAL E PERSPECTIVAS

No Brasil, o mercado de trabalho apresentou uma melhora em agosto, liderado pelo emprego informal. Nos EUA, o FED elevou a taxa de juros pela terceira vez nesse ano.

No Brasil, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) reafirmou a intenção do Banco Central em manter a taxa de juros em 6,5% nesse ano, condicionada à evolução do balanço de riscos. Na mesma linha dos seus últimos comunicados, o Banco Central (BC) segue com a avaliação de que as condições econômicas prescrevem uma política monetária expansionista e que sua reação aos recentes choques (câmbio e paralisação no setor de transporte de cargas) dependerá da ocorrência de efeitos secundários sobre a inflação. O relatório ressalta, inclusive, que os componentes da inflação mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária permanecem em níveis baixos. Reforçando a importância da ancoragem das expectativas inflacionárias, o BC sinalizou que uma deterioração adicional do cenário de inflação e/ou do balanço de riscos implicaria redução gradual do estímulo monetário. Sobre o cenário internacional, o BC manteve o julgamento de que o processo de normalização das taxas de juros em economias avançadas produziu uma redução no apetite ao risco em relação às economias emergentes. Finalmente, as projeções de IPCA com a taxa de juros e câmbio constantes foram elevadas em relação ao RTI de junho (de 4,2% para 4,4 em 2018, e de 4,1% para 4,5% em 2019). No cenário que considera a trajetória de câmbio e juros do mercado, a projeção do IPCA para 2018 cedeu de 4,2% para 4,1%, enquanto que para 2019 subiu de 3,7% para 4%. Ainda sobre as projeções, o BC reduziu sua expectativa de crescimento do PIB em 2018 de 1,6% para 1,4%. Ademais, o BC publicou pela primeira vez sua projeção de PIB para 2019, com expansão de 2,4%. As sinalizações do RTI reforçam que o cenário base continua sendo de juros estáveis pelas próximas reuniões. Dessa maneira, mantemos nossa expectativa de juros em 6,5% a.a. até o final do ano. 

Os dados do mercado de trabalho de agosto mostraram um quadro favorável, embora a recuperação continue sendo liderada pela ocupação informal. Entre julho e agosto, a taxa de desemprego recuou de 12,3% para 12,1%, patamar abaixo da expectativa de mercado (12,2%). Em termos dessazonalizados, a taxa de desemprego recuou de 12,2% para 12,1% no mesmo período. Na margem, o crescimento de 0,4% da população ocupada foi o responsável pela queda do desemprego com ajuste sazonal. A melhora da ocupação decorreu principalmente do emprego informal, que cresceu 0,9% na margem. O emprego com carteira também cresceu, mas em ritmo menor, com crescimento de 0,1%. Entre os setores, serviços e agricultura foram os destaques com crescimento da ocupação de 0,6% e 1,3%, respectivamente. Sobre a dinâmica de salários, os salários reais tiveram o quinto mês consecutivo de alta e cresceram 0,2% na margem. Em termos anuais, o aumento foi de 1,3%, decorrente do aumento de 5,7% dos salários nominais. Com o crescimento da ocupação e da renda real, a massa salarial foi beneficiada e subiu 0,6% na margem e 2,6% na comparação anual. O resultado de agosto do mercado de trabalho se mostrou favorável em relação à ocupação e à renda, mas ainda revela uma dificuldade estrutural de recuperação do emprego formal, evidenciando o cenário de recuperação modesta da atividade.

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 16,9 bilhões em agosto, abaixo da nossa projeção (R$ -19,3 bilhões) e do consenso de mercado (R$ -18,7 bilhões). No acumulado em 12 meses, o déficit primário consolidado aumentou de 1,15% do PIB em julho para 1,25% em agosto.  Na composição do indicador consolidado, o governo central registrou déficit de R$ 20,8 bilhões. A surpresa positiva em relação ao nosso número ficou por conta do superávit de R$ 3,4 bilhões dos governos regionais, enquanto as estatais registraram superávit de R$ 600 milhões. No que diz respeito ao déficit nominal (inclui despesa com juros), em 12 meses o indicador subiu de 7,02% do PIB em julho para 7,45% do PIB em agosto. Essa elevação foi impactada pela perda de R$ 28,6 bilhões nas operações de swap cambial. Com esses números, a dívida bruta do governo geral atingiu 77,3% do PIB em agosto, ante 77,2% em julho, se mantendo em trajetória de aumento. Em nossa avaliação, a despeito do ritmo lento de recuperação da atividade, acreditamos que o governo registrará ao final de 2018 um déficit primário próximo R$ 125 bilhões, abaixo da meta estipulada de déficit de R$ 159 bilhões.

A nota de crédito em agosto registrou nova aceleração, consolidando os sinais positivos pelo lado das concessões e melhora no quadro de inadimplência. O estoque de crédito totalizou R$ 3,2 trilhões, avançando 3,4% na em relação ao mesmo período do ano passado, ante expansão de 2,3% em julho. Como proporção do PIB, o estoque atingiu o patamar de 46,7%. Para pessoa física, o estoque aumentou 6,8% em termos anuais, contando com um avanço de 9,1% nas concessões no segmento livre e 4,3% no segmento direcionado. Para pessoa jurídica, houve contração de 0,4 % do estoque, com recuo de 9% das concessões no segmento direcionado e aumento de 8,7% no segmento livre. Sobre a inadimplência, o patamar se manteve em 3,5% para pessoa física, enquanto para pessoa jurídica a taxa avançou para 2,5%. Tendo como base a recuperação do crédito no segmento livre, esperamos que o estoque de crédito apresente expansão próxima de 5% nesse ano, com crescimento de 9,2% em pessoa física e de 0,3% em pessoa jurídica. 

Do ponto de vista da exposição externa, os dados de agosto revelam a condição robusta do balanço de pagamentos. Em agosto, o saldo em conta corrente foi deficitário em US$ 717 milhões, resultado melhor que a expectativa de déficit de US$ 1,3 bilhão. Em 12 meses, o saldo acumulado é negativo em US$ 15,5 bilhões   (-0,8% PIB). Em sua composição, a balança de bens foi superavitária em US$ 3,4 bilhões, resultado US$ 2 bilhões abaixo do resultado de agosto do ano passado. O avanço de 36% das importações, sob influência do registro de plataformas de petróleo no âmbito do Repetro, tem reduzido o superávit na conta de bens. Na conta de serviços, o saldo foi deficitário em US$ 3,7 bilhões, saldo superior em 6% em relação ao mesmo período em 2017. Como destaque para essa queda do déficit nos serviços, os gastos líquidos com viagens recuaram 30% em termos anuais. Na parte de renda primária, o saldo foi negativo em US$ 1,6 bilhão, com destaque para a saída líquida de US$ 1,4 bilhão em lucros e dividendos. No que concerne ao fluxo de capital, o investimento direto no país (IDP) atingiu US$ 10,6 bilhões em agosto, acumulando US$ 69,6 bilhões em 12 meses (3,6% do PIB). O fluxo de portfólio (Renda Fixa, Renda Variável e Fundos de Investimento) teve resultado negativo em US$ 7,9 bilhões, acumulando saldo negativo de US$ 2 bilhões em 12 meses. A taxa de rolagem, por sua vez, ficou em 129% no mês. A dinâmica das contas externas segue bastante benigna, tendo em vista o déficit reduzido em conta corrente e o fluxo robusto de financiamento.

No cenário global, o Banco Central dos EUA (FED) elevou novamente a taxa de juros, sinalizando a continuidade do ciclo de aperto monetário. O comitê de política monetária (FOMC) elevou a taxa de juros em 25 pontos base, para o intervalo de 2,0% a 2,25% ao ano, em linha com a expectativa do mercado. No comunicado após a reunião, o FED manteve a avaliação positiva a respeito da atividade e do mercado de trabalho, assim como, o trecho que mencionava o patamar da inflação como “simetricamente próximo à meta de 2%”. A principal novidade no comunicado ficou por conta da exclusão do trecho que qualificava a condição atual da política monetária como ‘acomodatícia’. Em termos de projeções, as medianas para a taxa de juros foram mantidas para 2018, 2019 e 2020. Nesse caso, o FED trabalha com um cenário de uma alta adicional nesse ano, três altas em 2019 e mais uma alta em 2020. Pela primeira vez tivemos a divulgação da projeção de juros para 2021, a qual prevê manutenção dos juros no patamar de 3,375%. Cabe destacar que apesar das medianas das projeções não terem sido alteradas, a média das projeções de juros foram elevadas em 2018 e 2019. No balanço das projeções de crescimento (PIB) e inflação ao consumidor (PCE), o PIB de 2018 foi elevado de 2,8% para 3,1%, enquanto a projeção do PCE de 2019 cedeu de 2,1% para 2%. Diante do aperto do mercado de trabalho e das medidas recentes de estímulo fiscal, acreditamos que o cenário de inflação é condizente com a continuidade do aperto monetário pelo FED, com mais uma alta de juros em dezembro, e quatro altas adicionais em 2019.

 Na Zona do Euro, a inflação ao consumidor (CPI) acelerou entre agosto e setembro, mas o núcleo da inflação decepcionou as expectativas. Em termos anuais, o CPI variou 2,1% em setembro, em linha a expectativa do mercado e acima da inflação de 2% em agosto. Essa aceleração decorreu de um aumento nos componentes de alimentação (de 2,4% para 2,7%) e de energia (de 9,2% para 9,5%). Aos excluirmos esses dois itens, o núcleo da inflação subiu 0,9%, abaixo da variação de 1% em agosto, o que frustrou a expectativa do mercado de aceleração para 1,1%. A despeito da recuperação em curso na economia, a dinâmica inflacionária segue contida. Nesse cenário, acreditamos que o BCE não estenderá o seu programa de compra de títulos para além de dezembro desse ano. O processo de normalização da taxa de juros, por seu turno, deverá ter início apenas no segundo semestre do próximo ano.

Ainda na Europa, a Itália divulgou o seu orçamento fiscal para 2019 e frustrou a expectativa do mercado. Para os próximos três anos, o governo italiano anunciou um déficit de 2,4% do PIB, tendo em vista um plano de corte de impostos para empresas, aumento do investimento em infraestrutura e ampliação dos gastos sociais. O orçamento do governo anterior, em linha com a plano de redução da dívida italiana pela União Europeia (EU), compreendia um déficit de 0,8% do PIB em 2019. A nova projeção de déficit foi uma clara derrota do Ministro das Finanças da Itália, Giovanni Tria, que defendia um déficit mais próximos de 1,6%. Apesar da derrota para lideranças políticas da coalizão, Tria se comprometeu a permanecer no cargo. Diante de uma relação dívida/PIB que nos últimos dez anos subiu mais de 30 p.p, alcançando o patamar de 133% em 2017, o mercado aguardava um déficit de no máximo 2% do PIB, o que em possibilitaria ao menos a estabilização da dívida. O novo orçamento inviabiliza essa dinâmica. Com isso, a UE deverá rejeitar o orçamento italiano, após o seu recebimento em meados de outubro. Acreditamos que as partes chegarão a um acordo após a escalada das negociações até o final do ano e o provável rebaixamento da nota de crédito italiana pelas agências de rating nas próximas semanas.

Na próxima semana, a agenda de eventos locais terá como destaque a divulgação do IPCA de setembro. Ademais, a produção industrial de agosto será conhecida na terça-feira. No calendário de eventos global, o destaque fica por conta da divulgação dos dados de mercado de trabalho dos EUA na sexta-feira. Na Europa conheceremos os dados de vendas no varejo do mês de agosto.

 

 
 

 

 


voltar