03/07/2018 - 10:21 | Economia

RESENHA SEMANAL E PERSPECTIVAS

No Brasil, o Banco Central sinalizou que os choques recentes não alteram o cenário de manutenção da Selic em 6,5% a.a em 2018. Nos EUA, a inflação em maio superou a expectativa do mercado.

No Brasil, o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) reafirmou a intenção do Banco Central em manter a taxa de juros em 6,5% nesse ano. Na mesma linha dos seus últimos comunicados, o Banco Central (BC) segue com a avaliação de que as condições econômicas prescrevem uma política monetária expansionista, e que sua reação aos recentes choques (câmbio e paralisação no setor de transporte de cargas) dependerá da ocorrência de efeitos secundários sobre a inflação. Nesse sentido, a autoridade monetária reconhece que os dados de inflação no curto prazo serão pressionados por esses eventos, devendo desacelerar nos meses seguintes. O relatório ressalta, inclusive, que os componentes da inflação mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária permanecem em níveis baixos. Sobre o cenário internacional, o BC manteve o julgamento de que o processo de normalização das taxa de juros em economias avançadas produziu uma redução no apetite ao risco em relação a economias emergentes.  Finalmente, as projeções de IPCA com taxa de juros e câmbio constantes foram elevadas em relação ao RTI de março (de 3,6% para 4,2% em 2018, e de 4% para 4,1% em 2019). No cenário que considera a trajetória de câmbio e juros do mercado, a projeção do IPCA para 2018 subiu de 3,8% para 4,2%. Por outro lado, a projeção para 2019 cedeu de 4,1% para 3,7% em virtude do aperto da taxa de juros e da apreciação do câmbio esperada para o próximo ano. Vale destacar que em ambos os cenários a projeção de inflação se encontra abaixo da meta (4,5% em 2018 e 4,25% em 2019). Ainda sobre as projeções, o BC reduziu sua expectativa de crescimento do PIB em 2018 de 2,6% para 1,6%. As sinalizações do RTI reforçam que o cenário base continua sendo de juros estáveis pelas próximas reuniões. Dessa maneira, mantemos nossa expectativa de juros em 6,5% a.a. até o final do ano. 

Os dados do setor externo em maio seguem mostrando um quadro favorável. Segundo as estatísticas  do setor externo divulgadas pelo Banco Central, no mês de maio o saldo em conta corrente foi superavitário em US$ 729 milhões, levemente abaixo da expectativa do mercado (US$ 935 milhões). Em 12 meses, o saldo em conta corrente é negativo em US$ 13 bilhões (-0,65% do PIB). Na composição do indicador, a balança comercial registrou superávit de US$ 5,6 bilhões, queda de 24% em relação ao mesmo período em 2017, em virtude da paralisação do setor de transporte de cargas. Na rubrica de serviços, o saldo ficou negativo em US$ 2,7 bilhões, com destaque para os gastos com viagens que avançaram 7,9% em termos anuais. A conta de renda primária, por sua vez, apresentou salto negativo de US$ 2,3 bilhões, com aumento de 13% em termos anuais nas remessas de lucros e dividendos. Do ponto de vista de fluxo financeiro, o investimento direto no país (IDP) se manteve robusto, com a entrada líquida de US$ 3 bilhões em maio, somando US$ 61,8 bilhões em 12 meses (3,07% do PIB).  Já a conta de ações, fundos de investimento e títulos de renda fixa apresentou saída líquida de US$ 6,4 bilhões, somando US$ 2,5 bilhões em 12 meses. Por fim, a taxa de rolagem atingiu 115%, acelerando ante o patamar de abril (95%). Gerando um saldo positivo pelo terceiro mês consecutivo, o saldo em conta corrente segue em patamar confortável quando comparado à economias emergentes, além de ser plenamente financiado pelo IDP, reafirmando a robustez das contas externas. Acreditamos que o saldo em conta corrente encerre o ano com déficit de US$ 15 bilhões.

Segundo os dados da PNAD Contínua, a taxa de desemprego atingiu 12,7% no trimestre encerrado em maio, o que representa uma queda de 0,6 p.p em relação ao mesmo período em 2017. Essa queda em relação ao mesmo período em 2017 decorreu de uma expansão de 1,3% (ante 1,7% em abril) da população ocupada, com alta de 2,9% no emprego sem carteira e queda de 0,3% na geração de empregos com carteira. O número de pessoas na força de trabalho, por outro lado, aumentou apenas 0,6% em termos anuais. Em termos dessazonalizados, a taxa de desemprego se manteve em 12,4% em virtude do recuo de 0,1% tanto da população ocupada, como da população economicamente ativa (PEA). A respeito da dinâmica de salários, o rendimento médio real acelerou, com elevação de 1%, ante 0,5% apresentado em abril. Embora o dado de tenha incorporado os efeitos da paralisação no setor de transportes, podemos dizer que a recuperação do mercado de trabalho ocorre de forma lenta. Para esse ano, a taxa de desemprego  média alcance 12,2%, ante 12,8% em 2017.

Os dados de crédito de maio confirmaram a recuperação em curso no setor. O estoque total de crédito na economia atingiu R$ 3,1 trilhões em maio, aumento de 1,3% contra o mesmo período do ano passado, o que representa uma aceleração em relação ao patamar de abril (0,7%).  A composição do saldo contou com uma expansão de 6,3% na carteira de crédito para pessoa física (PF), com destaque para a expansão de 7,8% no segmento livre, e queda de 4% em pessoa jurídica (PJ). Analisando as concessões, observamos para PF um avanço de 10,5% em termos anuais no segmento livre, e avanço de 2,2% na concessão do crédito direcionado. Em PJ, a tendência de aceleração nas concessões no segmento livre se manteve (alta de 8,5% em termos anuais), assim como não houve modificação no processo de recuo das concessões no segmento direcionado (queda de 17% em termos anuais). Diante desses números, a relação crédito/PIB permaneceu em 46,6%, com elevação da participação do crédito livre. A respeito da inadimplência, o quadro foi de estabilidade tanto em PF (3,6%) como em PJ (3,0%). De modo geral, cabe destacar que  nesse processo de recuperação do crédito tem sido fundamental a participação do setor privado, dado que os bancos públicos continuam contribuindo negativamente, explicado pelo movimento do BNDES. Para 2018, diante da melhora no cenário de atividade e da política monetária em campo expansionista, esperamos que o estoque de crédito apresente expansão próxima de 5%, com crescimento de 9,2% em PF e de 0,3% em PJ. 

Na Zona do Euro, a inflação apresentou leve aceleração em maio por fatores temporários. No mês, a inflação em termos anuais alcançou 2%,  em linha com o consenso de mercado, mas acima da variação de maio (1,9%). As variações de 8% e 2,8% nos componentes de alimentos e energia, respectivamente, foram fundamentais para a aceleração do índice. Quanto ao núcleo da inflação (exclui alimentos e energia), entre abril e maio o índice desacelerou de 1,1% para 1% em virtude do recuo na inflação de serviços (de 1,6% para 1,3%). O patamar acomodado do núcleo da inflação na Zona do Euro, distante da meta de inflação (2%), corrobora a visão de que o Banco Central Europeu iniciará a discussão sobre aumento de juros apenas em meados de 2019. 

Na Ásia,o Banco do Povo da China (PBoC) anunciou um corte de 50 p.b  na taxa de compulsório bancário. A taxa aplicada para a maioria dos bancos passará para 15,5%, e entrará em vigor a partir de 05 de julho. Segundo o PBoC, a medida tem como meta injetar US$108 bilhões na economia por meio do estímulo ao crédito para pequenas empresas. Em nossa visão, essa medida tem como objetivo manter a desaceleração da atividade em ritmo  gradual. Após o crescimento de 6,8% no primeiro trimestre, acreditamos que o PIB desacelere ao longo desse ano para 6,5%.

Na próxima semana, a agenda doméstica terá como destaque a divulgação do IPCA de junho na sexta-feira, para o qual esperamos variação de 1,35%. Ainda no Brasil, conheceremos a produção industrial de maio que, em virtude da paralisação do setor do transporte de cargas, deverá recuar 13,8% na margem. Nos EUA, o relatório de emprego de junho será divulgado também na sexta-feira, enquanto na China e Zona do Euro teremos a divulgação dos dados de confiança de junho (PMI) ao longo da semana.

 

 

 

 

 

 


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